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    Lançamento de Livro: “Nordeste do Brasil, 1942/1945:” - 22 de Agosto - 19h



    A Segunda Guerra Mundial foi aqui!


    Marcos Silva (Professor na FFLCH/USP) e Vandré Teotonio da Silva (Doutor em

    História Social pela FFLCH/USP) 1944: na Europa, Nazismo e Fascismo perdiam espaço (a Batalha de Stalingrado teve seu desfecho em fevereiro de 1943; o desembarque de tropas aliadas na Normandia se deu no dia 6 de junho de 1944); no Brasil, o “Estado Novo” (1937/1945), junto com outros estados nacionais latino-americanos foram constrangidos a combaterem os nazi-fascistas, com quem dialogavam cordialmente até tão pouco tempo, e a ditadura daqui enviou soldados para a Itália contra ex-quase-irmãos – impérialisme oblige...


    Essa guinada foi ao encontro da causa dos Aliados (a Argentina só declarou

    guerra ao que havia restado do “Eixo” em 1945) e acelerada, sobretudo, após a III

    Conferência dos Chanceleres Americanos, sediada na capital federal brasileira em

    janeiro de 1942, responsável pelo posicionamento oficial da maioria desses estados

    nacionais a favor do símbolo da campanha aliada, o “V da vitória”.


    A presença militar estadunidense foi além da ancoragem de navios e pouso de

    aviões militares: desembarcavam em nossas fronteiras, sobretudo no Rio de Janeiro,

    celebridades hollywoodianas, cantores, atores, capitalistas, chefes militares e políticos

    das terras de Tio Sam que passaram a enxergar o Brasil não apenas como o “Trampolim

    da Vitória” (termo empregado pelo Estado Novo para designar e promover a cidade de

    Natal) mas, especialmente, identificaram uma oportunidade para transações comerciais

    e culturais que aprofundariam nosso flerte com o modo de vida estadunidense. Isso, é

    claro, sem contar os vários milhões de dólares injetados na economia nacional, bem

    aproveitados por Vargas para propagandear, via imprensa censurada, seu projeto de

    Brasil - agora, ostentando os vizinhos ianques lado a lado com a ditadura.


    Fez parte desse pacote, portanto, a presença de tropas ianques no Nordeste

    brasileiro, quer em instalações militares, quer diluídos no cotidiano de algumas cidades.

    Essas áreas foram classificadas como estratégicas em relação a África e Europa,

    cenários ainda mais imediatos daquela guerra. O presente volume traça um painel de tal

    presença em São Luís, Teresina, Fortaleza, Natal, João Pessoa, Recife, Maceió, Aracaju

    e Salvador.


    A entrada do Brasil na guerra englobou o torpedeamento de navios brasileiros

    nas águas nacionais. Submarinos supostamente alemães (os nazistas negaram isso,

    houve rumores sobre outra nacionalidade) vitimaram brasileiros. A guerra era

    considerada pela ditadura estadonovista, até dezembro de 1941 (ataque japonês à base

    de Pearl Harbor), como um problema distante da segurança americana. O povo

    nordestino foi o núcleo brasileiro que vivenciou em primeira mão os horrores do

    conflito ao se deparar com corpos de compatriotas que davam em suas praias: o conflito

    estava aqui.


    Nordeste do Brasil nunca teve homogeneidade: estamos diante de experiências

    locais, estaduais, regionais, nacionais e mundiais, que englobam poderes, classes

    sociais, gêneros, gerações e etnias em permanente mistura, inclusive Coca-Cola,

    consumo de enlatados com prazo vencido pelos pobres da região (contra miséria e fome,

    o risco do botulismo) e difusão de exames de toque retal e preservativos, em prostíbulos

    ou não – soldados confraternizavam intimamente com nativas e nativos e procuravam

    evitar contrair novas doenças, mesmo que, talvez, difundissem outras.


    Seria ótimo que o Nazi-Fascismo tivesse simplesmente deixado de existir em

    1945, com a derrota militar dos governos alemão, italiano e japonês. A História se

    revela mais complicada que esses aparentes pontos finais. Governos para-fascistas

    sobreviveram tranquilamente até à morte de seus ditadores – Franco (+ 1975), na

    Espanha, e Salazar (+ 1970), em Portugal, são os mais visíveis. Apartheids sangrentos

    continuaram a existir nos EEUU (até 1964/1967), na Rodésia (até 1978/1980) e na

    África do Sul (até 1994). Ditaduras inomináveis retomaram práticas nazi-fascistas nas

    Américas e noutras partes do mundo. Limpezas étnicas ressurgiram na ex-Iugoslávia

    novamente capitalista. Imigrantes continuam a ser tratados de forma destrutiva na

    Europa, nos EEUU e noutras partes do mundo, inclusive no Brasil. Racismo e violência

    florescem – na campanha presidencial brasileira de 2018, falas explicitamente racistas e

    suásticas foram alegremente exibidas.


    “Tempo sem sol” (Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, “Tempo de guerra”, a

    partir de Bertolt Brecht). “Negror dos tempos” (Caetano Veloso, título e verso). “O sol

    há de brilhar mais uma vez” (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, “Juízo final”).

    “Fim da tempestade, o sol nascerá” (Cartola, “O sol nascerá”).