Lançamento - Pesadelo - 04 de Dezembro, 19h


Abrindo as coivaras e usinas do esquecimento 

Antônio Carlos Queiroz, jornalista   

No próximo dia 4 de dezembro, a Livraria Sebinho lançará o novo livro do poeta Pedro Tierra, “Pesadelo – Narrativas dos Anos de Chumbo”, ilustrado por Elifas Andreato, editado pela Fundação Perseu Abramo e a editora Autonomia Literária, de São Paulo.

Por uma dessas coincidências infernais, descubro que nessa data, 4 de dezembro, no ano de 1905, nasceu o general Emílio Garrastazu Médici, tido por alguns historiadores como o mais feroz dos generais-presidentes. E o Geisel?   


“Pesadelo” é obra do poeta Pedro Tierra e não do militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), Hamilton Pereira da Silva, a sua identidade civil. Faz diferença? Faz! O Hamilton poderia narrar as barbaridades que sofreu nos cinco anos em que esteve preso, entre 1972 e 1977. Quarenta anos depois, com as feridas ainda abertas, e com a memória já esmaecida nos detalhes, preferiu entregar a tarefa à instância de sua pessoa que domina os materiais da ficção, Pedro Tierra. “As zonas de sombra predominam sobre as que foram esclarecidas pelas abnegadas pesquisas e buscas de familiares, militantes, jornalistas, historiadores. Então, o escritor é chamado a dizer por meio da ficção a verdade que o relatório, o boletim, o depoimento não capturam”.


Ele insiste que se trata de ficção, mas talvez a palavra mais exata seja outra. Sublimação? As lutas da resistência, a repressão, a prisão e a tortura constituem a matéria-prima, agora sublimada em forma de obra de arte. “Desse modo, o escritor se liberta da solidão do ato de escrever, como testemunha, para integrar-se nessa incessante busca das sociedades e das culturas: decifrar, e não raras vezes denunciar, o sentido ou o sem sentido das tiranias que atormentam a história humana”.


Seu modelo são as “Memórias do Cárcere”, de Graciliano Ramos, “escritas a canivete”. A sua motivação, se é verdade que os poetas são mesmo “as antenas da raça”, lhe chegou há três anos na forma de uma insistente, irrefreável premonição: a sensação de que já tinha visto o filme que se desenrolava ao vivo para quem quisesse ver, e que contava a gestação no País de uma repetição de nossa história, um novo golpe, semelhante ao golpe de 64, mas dessa vez vestido da toga dos juízes e do terno dos cretinos parlamentares.    

Pedro Tierra diz que vive “em tempos de tirania”. E que escreve “para quem está predisposto a indignar-se e lutar contra ela”. “Pesadelo” é, portanto, uma ferramenta da resistência contra a atual regressão histórica.


As histórias que Pedro conta são terríveis, embrulham o estômago. Algumas reanimam a esperança. Fazem a gente pensar: como é que esses meninos suportaram? Como é que o Hamilton suportou? A resposta talvez esteja numa frase que Hannah Arendt atribuiu à escritora dinamarquesa Karen Blixen (Isak Dinesen): “Todos os sofrimentos podem ser suportados se você os encaixar numa história, ou contar uma história sobre eles”. 

“Sobrevivi à partida de xadrez contra a morte. Sobrevivi, talvez, para contar todas essas coisas presas nas armadilhas da memória”, diz o narrador na história do filho do alfaiate,   médico, que se tornou um “cachorro” da repressão, um dedo-duro da polícia. 


A primeira narrativa do livro, “Sinfonia nº 2”, ilustra o que Walter Benjamin dizia sobre a estetização da  política por parte dos fascistas. Um jovem capitão, admirador de Kemal Atatürk, fundador da Turquia moderna (“Sobre os ossos dos armênios”, glosa o narrador), conduz as sessões de tortura ouvindo a Sinfonia nº 2 em Ré Maior, de Jean Sibelius.

“Sob o capuz, não se percebe de onde virá o próximo golpe. O corpo é todo tensão. Como o arco de um violino. “Tua carne será apenas tua dor”, repito comigo o que um dia se converterá em verso. O silêncio se recompõe. Súbito. Como se respondesse a um comando invisível. A volta da Sinfonia no 2, em Ré Maior, de Sibelius, vim a saber anos mais tarde, repetida a toda altura, como se atada às mãos de um maestro enlouquecido que não manejasse a batuta do regente, mas alucinadamente a manivela do dínamo. Horas sobre horas, noites sobre noites: até imprimir os acordes na medula da alma”.

Os versos que servem de epígrafe para a segunda história, a do filho alcaguete do alfaiate - e em que comparece en passant o Major Tibiriçá (coronel Carlos Brilhante Ustra, herói do presidente Jair Bolsonaro) - resumem volumes: “Viste a morte e a morte era apenas / um homem sem sonhos”. 


O capítulo seguinte, “O Leitor do Livro do Apocalipse”, homenageia José Porfírio, o líder do levante camponês de Trombas e Formoso, em Goiás, nos anos 50 do século passado. O narrador relembra que a história lhe foi confiada pelo personagem antes de ser libertado e ser dissolvido na “sombra e no pó”. “Naqueles anos algumas usinas foram utilizadas, nesta atormentada geografia, para converter homens e mulheres em cinzas. Coivaras de esquecimento. Usinas de esquecimento. Para depois lançá-los à terra na estação das chuvas. E ninguém mais pudesse ferir a superfície do silêncio a que se habituaram os ouvidos de todos. E nos tornarmos incapazes, por décadas, de proferir seus nomes, no idioma herdado, e prolongar na geração seguinte o sopro de suas vidas e de sua indignação”.  A operação de silenciamento, como se viu, só teve êxito em parte.  

 

O leitor do livro do Apocalipse talvez fosse, ele próprio, um profeta, como o seu autor, o João, um prisioneiro de consciência na ilha de Patmos, sob o reinado do imperador Domiciano: “Quando eu sair daqui ninguém nunca mais saberá de mim. Conheço lugares que nem Jesus Cristo com os doze apóstolos pisou. Vou virar uma sombra. Uma sombra não se prende. Não se mete em cadeias. As sombras deslizam sobre paredes. Muros. São mais livres que os homens. As sombras não sangram: manchas de silêncio. Escapam do gume dos ferros. São defendidas da palavra. São defendidas da dor”. 


Depois de ser libertado do DOI-CODI em Brasília, no dia 7 de junho de 1973, José Porfírio foi visto pela última vez por sua advogada quando apanhava um ônibus em direção a Goiânia. 

Os dois capítulos seguintes, “Coragem” e “Verdade: Verdades…”, retratam o destemor dos revolucionários diante dos algozes. Em “Coragem”, dedicado ao goiano Alaor Figueiredo, “organizador de coragens”, e onde se conta a saga dos guerrilheiros e posseiros do baixo Araguaia, um velho comunista do Partidão é desprezado pelos jovens prisioneiros por reformista e conciliador. Mas é ele quem enfrenta um general que visita o pavilhão para recrutar os presos arrependidos,  dispostos a falar bem do regime na televisão em troca da liberdade. “General, a cela é o espaço do preso. O último espaço. O senhor, portanto, não devia ter entrado aqui. O senhor vir até aqui oferecer a esses meninos que se arrependam em troca de qualquer coisa eu compreendo, embora não aceite. O senhor fazer essa proposta para mim, um comunista moído de pancada por seus mãos de ferro, é um insulto! O senhor se retire da cela. Aqui ninguém se arrepende!” Desde então, o velho comunista passou a ser tratado com respeito e afeto. 


Em “Verdade: Verdades…”, Geraldo Marques, um negro, alto, esguio, estampa de sertanejo, desempenado e altivo, provoca um recruta catarinense de olhos azuis, perguntando pela saúde de sua mãe. O soldado tenta em vão mobilizar o oficial do dia para punir o atrevido, e se torna seu inimigo. Por que a provocação? “Nesse lugar, se você não inventa uma luta logo quando amanhece, os dentes dos dias vão comendo a carne de sua alma aos poucos. Quando você sair daqui restarão apenas os ossos. Roídos. Sem nenhuma valia. Se quiser sobreviver tem que arrumar uma encrenca todo dia. É o jeito de dizer a eles: aqui do lado de dentro tem homens e seguimos vivos”.


Outra dimensão da natureza humana, a dos compromissos éticos, é apresentada como ponta de faca no penúltimo capítulo. Um combatente do Vale do Ribeira, São Paulo, é corroído pelo arrependimento de ter executado um tenente que deixou de cumprir um combinado com o seu grupo. Com a pena de morte comutada para prisão perpétua e para 30 anos, e libertado nove anos depois, quando a ditadura agonizava, o rapaz pondera: “(Não se executam prisioneiros. É a regra da guerra. O que significa executar um prisioneiro em nome da refundação da sociedade, em nome de uma utopia de justiça e liberdade? Em nome de qualquer utopia? Que utopias autorizam execuções? Que sociedade pode nascer de um parto que despedaça a cabeça dos inimigos? O que ocorreu ali? Uma execução. Um crime de guerra. Sou um revolucionário ou um criminoso de guerra? Atravessei a linha entre a luta revolucionária e o banditismo? O que somos? Cangaceiros de Lampião, trinta anos depois? Qual é o código que nos guia? Como se constituiu o tribunal revolucionário? Quem outorgou autoridade sobre a vida e a morte dos capturados? Houve afinal um julgamento? Existe direito real de defesa nos tribunais de guerra?)”


Por fecho, a história de dois militantes do Molipo (Movimento de Libertação Popular), Neusa e Raimundo - Maria Augusta Thomaz e Márcio Beck Machado, nomes não explicitados no livro. O casal foi executado e enterrado numa fazenda de Goiás, no dia 17 de maio de 1973. Seus ossos foram depois exumados. Seus crânios, separados dos  esqueletos e enviados para São Paulo. Foram condenados à prisão depois de mortos.


A pensata final não é de esperança, mas de alerta para quem está disposto a continuar a luta pela democracia, a despeito dos riscos. Por que será que no pesadelo circular de cinco séculos de nossa história, as classes dominantes sempre cortaram as cabeças dos insubmissos? Zumbi, Tiradentes, Conselheiro, Lampião, Maria Augusta e Márcio Beck… Acham que podem impedir a sua ressurreição?


Serviço


Pesadelo – Narrativas dos Anos de Chumbo

Pedro Tierra, 2019 - Autonomia Literária e Fundação Perseu Abramo

Lançamento e noite de autógrafos – dia 4 de dezembro, a partir das 19h na Livraria Sebinho (406 Norte)

Preço – R$ 35,00

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406 Norte, Bloco C - Asa Norte

Livraria: Seg a Sáb: 12h - 19h

Avaliação e Compra pela loja: Seg a Sáb: 12h- 19h